05/10/2008

Um pouco sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro:



A história da organização do crime no Rio de Janeiro começou na década de 70, no presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, onde presos políticos (membros de movimentos populares, estudantis e trabalhistas avessos à ditadura militar) eram encarcerados com criminosos comuns no intuito de diluir e desarticular o discurso revolucionário. Só que os militares se enganaram e o tiro saiu pela culatra. O que decorreu foi uma politização em massa de criminosos comuns, que passaram a se politizar, articular e adquirir consciência “social e revolucionária”. Surge, a partir de então, a Falange Vermelha, a primeira facção criminosa do país. Posteriormente, terminaria se esfacelando, desmembrada por conflitos internos que geraram, com o tempo, outras três facções criminosas que hoje disputam, em confrontos incessantes e sangrentos, os pontos de vendas de drogas do Rio de Janeiro: o CV, Comando Vermelho; o TCP, Terceiro Comando Puro e o ADA, Amigo dos Amigos. Ironicamente, o intuito inicial era ocupar cada “buraco” abandonado pelo sistema, instalar bocas de fumo e, com o dinheiro gerado, cumprir com o papel do governo de auxiliar os moradores da região ocupada, mas como o tráfico de drogas, antes de tudo, é um negócio de alta lucratividade e o homem está sempre inclinado a querer sempre mais poder e dinheiro, a revolução deu lugar à ganância e a utopia, à falta de esperança, à revolta e ao agravamento do caos social. A ditadura militar acabou, deu lugar à politicagem. A maioria daqueles que tanto lutaram pela liberdade e pela democracia, hoje fazem de Brasília o palco das maiores sem-vergonhices do país; a utopia da juventude de maio de 68 deu lugar ao consumismo e à inversão de valores; a imprensa, hoje “livre” para escrever, fazer e acontecer, é, antes de qualquer coisa, um negócio que se beneficia da espetacularização e conseqüente banalização da violência, e, como o lucro é a prioridade de toda empresa, seja ela legal ou ilícita, pouco faz de significativo para mudar a situação. As polícias, totalmente despreparada para lidar com a situação de forma a resolvê-la ou atenuá-la, além de sofrer com o sucateamento de suas instituições, já não possuem credibilidade junto à população: têm a imagem maculada por casos escandalosos de corrupção, truculência e imperícia. Nem mesmo a adoção de medidas extremas, como o uso das Forças Armadas, e da famigerada Força Nacional de Segurança, conseguiram extinguir ou reduzir as atividades do tráfico, cada vez mais bem armado, influente, articulado e violento. As zonas periféricas da cidade do Rio de Janeiro estão divididas em territórios dominados por quadrilhas de narcotraficantes. Armados até os dentes, esses grupos impõem sua própria linguagem, suas leis, seu julgamento e punição para quem descumpri-las e sujeitam os moradores dessas comunidades e de seus arredores aos contratempos que fazem parte do dia-a-dia de toda favela dominada pelo tráfico: incessantes tiroteios com policiais; guerras com quadrilhas rivais e, não raro, entre si mesmos; a poluição sonora provocada pelos bailes funks “proibidos” - que de proibidos têm apenas o nome, pois ocorrem com freqüência em centenas de morros e favelas dominadas pelo tráfico e o constante temor de se ter um parente, vizinho ou amigo vitimado pela proximidade rotineira com o perigo. O que sê observa hoje é uma situação insustentável e aparentemente impossível de ser resolvida. Dos tempos românticos que inspiraram o surgimento da Falange Vermelha, as únicas coisas que perduraram e continuam existindo, mesmo depois de todas as mudanças decorrentes do fim do regime militar, são os tais “buracos” abandonados pelo sistema, que permanecem esquecidos, ocupados pelos pseudo-revolucionários que só fizeram aumentar as mazelas das comunidades onde se instalaram e os sofrimentos daqueles que, um dia, juraram representar, servir e proteger.


Notícias de uma Guerra Particular



O documentário retrata o cenário da segurança pública na cidade do Rio de Janeiro, que, devido a medidas administrativas falhas e políticas ineficientes, tem assumido feições monstruosas, apresentando perspectivas futuras nada consoladoras. Só que esta realidade está longe de pertencer exclusivamente ao Rio. Ela faz parte do cotidiano de todo grande centro urbano, tendo, de uns tempos para cá, migrado até mesmo para as cidades medianas e os interiores. Em Salvador, a insegurança também preocupa. Entretanto, a polícia, mesmo estando diretamente ligada à questão, não é a maior responsável pelo problema, apesar de, devido a sua configuração e seus métodos, colaborar para o agravamento da situação. É inquestionável a incapacidade das instituições públicas em atender à demanda pelos seus serviços. Da mesma forma que é evidente o crescimento do desemprego; a desocupação de maciça parcela da população; a falta de oportunidades e perspectivas; o abandono a que está condenado o sistema prisional; a baixa qualidade do ensino público; o sucateamento dos hospitais municipais e estaduais e a ineficácia da polícia em servir e proteger o cidadão. Esses são os elementos que configuram o atual quadro dos grandes e médios centros urbanos, que vêm sofrendo cada vez mais com a “favelização” e com a expansão numérica e espacial do crime organizado, principalmente o tráfico de drogas. Tanto no Rio de Janeiro, como em Salvador, aqueles que foram relegados ao abandono pelo poder público aboletaram-se desordenadamente no alto dos morros, nas periferias, na beira dos mangues, nas baixadas, nas encostas e embaixo das pontes. Sujeitos a um sem número de infortúnios e sem a devida assistência por parte do Estado, são forçados a sobreviver da maneira que lhes é possível. Mas o problema do tráfico de drogas não pode ser considerado de forma isolada, como um problema autômato que começa e termina nos espaços dominados pela miséria e pela pobreza. Ele é fruto de uma gama de problemas inter-relacionados política, histórica e socialmente entre si, só que a face mais nítida e sinistra da questão concentra-se nas áreas abandonadas pelo poder público e termina por fomentar o abismo que existe entre os moradores de comunidades carentes e a oportunidade de uma vida mais digna, pois onde impera a lei do tráfico, mora o terror, o medo, o silêncio e o perigo. Até mesmo para o Governo e seus aparelhos repressivos, inserir-se nestes locais, considerados áreas de alto risco, e manter o controle no controle da situação parece tarefa irrealizável . De um lado, os policiais: em sua maioria, seres desumanizados, mal preparados psicologicamente, mal remunerados, mal treinados e mal aparelhados. Do outro, os bandidos: geralmente jovens entre 14 e 20 anos, psicologicamente mais despreparados ainda, porém, quase sempre melhor remunerados que a polícia e armados “até os dentes” com modernas armas de grosso calibre. Neste cenário social estabeleceu-se, como definiu o até então Capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel, uma guerra muito particular entre a polícia e o tráfico de drogas - daí o nome do filme -, na qual não existem vencedores. As baixas são constantes em ambos os lados e, no meio desse caos, está o povo, sujeito a todos os tipos de violência por parte dos dois lados. O documentário foi gravado entre os anos de 1997 e 1998. De lá para cá, as coisas pioraram. Hoje, os traficantes do Rio de Janeiro executam golpes coordenados contra a polícia; o Município; o Estado e a sociedade: fuzilaram delegacias e batalhões de polícia; o prédio que sedia a Prefeitura; o Palácio da Guanabara, onde reside o governador do Rio com sua família; saquearam quartéis do Exército e da Aeronáutica; assassinaram um jornalista da maior emissora de TV do Brasil; coordenaram inúmeras rebeliões e execuções nos presídios; queimaram vários ônibus; praticaram incontáveis assaltos e latrocínios e homicídios encomendados, isso sem contar o terror espalhado pela cidade. Em Salvador, o que se pode observar é um crescimento vertiginoso da criminalidade, em especial do tráfico de drogas; do consumo do crack, dos assaltos a ônibus e dos conflitos entre quadrilhas de traficantes. Não raro, pode- se ver nas ruas, nos becos, em baixo das marquises, nas vielas, em casas abandonadas e em construções históricas em ruínas, jovens consumindo a droga ao ar livre, a qualquer hora do dia ou da noite. Até mesmo as grandes avenidas, como a Avenida do Contorno, a Avenida Sete de Setembro; as praças, como a do Campo Grande, a Piedade e a Castro Alves - isso sem falar no centro histórico, o badalado Pelourinho - e a orla da cidade tem sido cada vez mais ocupada pelos “sacizeiros ” e os assaltos acontecem com freqüência. O crack, por ser uma droga que vicia rapidamente, causa alucinações surtir um efeito de curta duração, induz ao uso compulsivo e facilmente leva seu usuário à dependência química e psicológica, provocando desvios de caráter, de personalidade e de conduta. Esta droga, à venda praticamente todas as bocas de fumo de Salvador a mais de dez anos, tem afundado a cidade em violência e agravado os seus problemas sociais, que já eram gritantes. A capital baiana ocupa hoje a quarta posição no ranking das cidades com o maior número de homicídios em números absolutos, precedida de São Paulo, em primeiro; Rio de Janeiro, em segundo e Recife, em terceiro. Isso sem falar que, só neste ano de 2008, já foram assassinados quase 30 policiais militares. É preciso que os governantes repensem as estratégias de combate ao crime e, além de aplicar mediadas apenas repressivas, remunere e prepare melhor a polícia, gere empregos e oportunidades, invista ostensivamente em educação, encare a questão das drogas como um problema de saúde pública e recicle o sistema penitenciário, caso contrário, as coisas só irão piorar, tanto em Salvador, quanto no Rio de Janeiro ou no resto do país.


02/10/2008

Crônicas in Cenas: O Novo Espetáculo da Oficina de Teatro 2 de Julho.


A Companhia de Teatro da Faculdade 2 de Julho, fruto da Oficina de Atores 2 de Julho, estréia dia 10 de outubro seu novo espetáculo, Crônicas in Cenas, no Teatro Dias Gomes. O espetáculo, como o próprio nome sugere, foi baseado em algumas das crônicas do II Concurso de Crônicas da Faculdade 2 de Julho, idealizado pela professora Ana Cláudia Pantoja e realizado no segundo semestre de 2007. Dentre as crônicas que serão encenadas estão as três primeiras colocadas no concurso. O grupo, que em menos de um ano de existência está prestes a realizar sua 2ª apresentação, é formado, em sua maioria, por estudantes de diferentes cursos da própria instituição. A história do grupo começou quando Rai Alves, ator, diretor do grupo e mentor do projeto, levou sua idéia ao Reitor da Faculdade, o professor Josué Mello, que enxergou na criação do grupo uma oportunidade de proporcionar aos estudantes o desenvolvimento da sensibilidade e do apreço à arte. Desta vez, Rai Alves e sua trupe levarão ao palco nada menos que uma crônica da vida, mas não aquela vida corriqueira e estressante que nos impele a mergulhar em nossos problemas e afazeres, que nos torna pessoas distraídas e alheias àquilo que nos cerca e pulsa vida. Crônicas in Cenas trará um retrato preto e branco da vida, uma apresentação de alta definição do ser humano, uma projeção visceral da existência. A primeira peça do grupo, intitulada AH! É... É?!! - que foi encenada em dezembro do ano passado foi totalmente construída em cima de poemas e gestos, fragmentada e apresentada através de esquetes. A cada quadro, a cada cena, foi possível contemplar o inusitado, em interpretações que variaram de Drumond a Castro Alves, Cazuza e dí Albuquerque. Ao ser perguntado sobre a experiência de ministrar uma oficina de estudantes universitários e dirigi-los, Rai Alves responde: “Foi muito prazeroso e inquietante redescobrir que, durante o tempo de convivência com este grupo, ainda estou aprendendo a fazer teatro. Estamos sempre aprendendo... até o que já sabemos.” Com uma linguagem teatral livre e autêntica, o grupo tem uma maneira própria de atuar e deixa bem claro que está aí para fazer arte, para criar e apresentar o seu fantástico mundo de sonhos, tão absurdo quanto a realidade.