A história da organização do crime no Rio de Janeiro começou na década de 70, no presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis, onde presos políticos (membros de movimentos populares, estudantis e trabalhistas avessos à ditadura militar) eram encarcerados com criminosos comuns no intuito de diluir e desarticular o discurso revolucionário.
Só que os militares se enganaram e o tiro saiu pela culatra. O que decorreu foi uma politização em massa de criminosos comuns, que passaram a se politizar, articular e adquirir consciência “social e revolucionária”. Surge, a partir de então, a Falange Vermelha, a primeira facção criminosa do país.
Posteriormente, terminaria se esfacelando, desmembrada por conflitos internos que geraram, com o tempo, outras três facções criminosas que hoje disputam, em confrontos incessantes e sangrentos, os pontos de vendas de drogas do Rio de Janeiro: o CV, Comando Vermelho; o TCP, Terceiro Comando Puro e o ADA, Amigo dos Amigos.
Ironicamente, o intuito inicial era ocupar cada “buraco” abandonado pelo sistema, instalar bocas de fumo e, com o dinheiro gerado, cumprir com o papel do governo de auxiliar os moradores da região ocupada, mas como o tráfico de drogas, antes de tudo, é um negócio de alta lucratividade e o homem está sempre inclinado a querer sempre mais poder e dinheiro, a revolução deu lugar à ganância e a utopia, à falta de esperança, à revolta e ao agravamento do caos social.
A ditadura militar acabou, deu lugar à politicagem. A maioria daqueles que tanto lutaram pela liberdade e pela democracia, hoje fazem de Brasília o palco das maiores sem-vergonhices do país; a utopia da juventude de maio de 68 deu lugar ao consumismo e à inversão de valores; a imprensa, hoje “livre” para escrever, fazer e acontecer, é, antes de qualquer coisa, um negócio que se beneficia da espetacularização e conseqüente banalização da violência, e, como o lucro é a prioridade de toda empresa, seja ela legal ou ilícita, pouco faz de significativo para mudar a situação.
As polícias, totalmente despreparada para lidar com a situação de forma a resolvê-la ou atenuá-la, além de sofrer com o sucateamento de suas instituições, já não possuem credibilidade junto à população: têm a imagem maculada por casos escandalosos de corrupção, truculência e imperícia. Nem mesmo a adoção de medidas extremas, como o uso das Forças Armadas, e da famigerada Força Nacional de Segurança, conseguiram extinguir ou reduzir as atividades do tráfico, cada vez mais bem armado, influente, articulado e violento.
As zonas periféricas da cidade do Rio de Janeiro estão divididas em territórios dominados por quadrilhas de narcotraficantes. Armados até os dentes, esses grupos impõem sua própria linguagem, suas leis, seu julgamento e punição para quem descumpri-las e sujeitam os moradores dessas comunidades e de seus arredores aos contratempos que fazem parte do dia-a-dia de toda favela dominada pelo tráfico: incessantes tiroteios com policiais; guerras com quadrilhas rivais e, não raro, entre si mesmos; a poluição sonora provocada pelos bailes funks “proibidos” - que de proibidos têm apenas o nome, pois ocorrem com freqüência em centenas de morros e favelas dominadas pelo tráfico e o constante temor de se ter um parente, vizinho ou amigo vitimado pela proximidade rotineira com o perigo. O que sê observa hoje é uma situação insustentável e aparentemente impossível de ser resolvida.
Dos tempos românticos que inspiraram o surgimento da Falange Vermelha, as únicas coisas que perduraram e continuam existindo, mesmo depois de todas as mudanças decorrentes do fim do regime militar, são os tais “buracos” abandonados pelo sistema, que permanecem esquecidos, ocupados pelos pseudo-revolucionários que só fizeram aumentar as mazelas das comunidades onde se instalaram e os sofrimentos daqueles que, um dia, juraram representar, servir e proteger.


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